O Ação Audiovisual é um projeto de extensão da UFES. Seu objetivo é divulgar a utilização das produções audiovisuais - cinema e vídeo - na educação.
Conta com a Mostra Ação Audiovisual (voltada para vídeos com temáticas sociais e direitos humanos) e o Cineclube Curta a Educação, em parceria com a Programadora Brasil.
Oficina realizada no Curso de Formação e Atualização em Saúde Mental, dia 23 de maio. O curso começou em abril e acontece todos os sábados na Ufes. O tema do curso nesse sábado foi a ocupação de território: a cidade. Pela manhã aconteceu a mesa redonda com Fernando Schubert (ativista de ocupação de territórios), Luis Antônio Batista, prof. da UFF, Milton Esteves, prof. da Ufes e Moema Rebouças, da Ufes. À tarde os participantes discutiram a articulação entre os temas tratados e o seu cotidiano no trabalho. O dia terminou com a oficina A Cidade que Mora em Mim, na qual participei como oficineira. Foi a minha primeira participação na oficina e foi uma experiência muito gratificante trabalhar, numa mesma sala, com psicólogos, cuidadores, estudantes e usuários dos Capes da Grande Vitória.
Durante o evento, que será transmitido em tempo real para os polos da EAD do interior do estado, realizarei a oficina Narrativas Visuais da Natureza, cujo objetivo é proporcionar aos participantes elaborar e organizar a narrativa visual por meio da fotografia e compreender as especificidades dos modelos narrativos visuais.
Os participantes farão um passeio pelo Parque da Pedra da Cebola, onde farão a captura das fotografias em meio digital (câmeras, celulares, MP4, etc). Depois, o material será editado e mostrado para toda a turma, que analisará os trabalhos.
Contar uma história por meio da fotografia, usando para isso recursos comuns no dia a dia (câmeras simples, celulares, computador doméstico, etc) é uma forma de fixar algumas noções básicas da imagem fotográfica, tais como enquadramento e plano, espacialidade e continuidade, etc.
A atividade é uma forma de introduzir um diálogo entre os professores de artes e os demais professores da escola: o tema natureza é vasto para tratar de disciplinas tais como Geografia (paisagens vegetais, recursos naturais, meio ambiente e meio social, construção e ocupação do espaço, etc), História (Mitos da Criação, concepções da humanidade sobre a natureza ao longo do tempo, etc), Ciências Naturais (Biologia, Zoologia, Ecologia, Química), Filosofia (a mimesis grega - os conceitos de imitação e representação), Linguagens (música, poesia, literatura, etc).
Alguns exemplos sobre as diferentes formar de representar a natureza ao longo da História:
Escrevi sobre A Via Láctea aqui. Revi hoje o trailer no youtube e me deu uma vontade enorme de rever o filme. Pena ser tão difícil encontrar os bons filmes nacionais nas nossas locadoras.
Estão abertas, até 17 de maio, as inscrições para o Festival Audiovisual Visões Periféricas, que pretende reunir, entre os dias 21 a 26 de julho, no Rio, o que há de mais inovador na produção nacional de vídeos vinculados a escolas e oficinas de audiovisual, realizadas nas múltiplas periferias do Brasil, desde uma favela, comunidade quilombola ou aldeia indígena.A versão 2009 do festival quer ampliar ainda mais o intercâmbio de culturas, e para isso realiza também uma Mostra Ibero-Americana de produções latinoamericanas, Portugal e Espanha. Paralelo ao festival e à Mostra será realizado o Seminário de Educação e Audiovisual, um espaço de debate e reflexão sobre as experiências populares e informais de ensino.
Além da competitiva, o Visões Periféricas 2009 terá as mostras temáticas Cinema da Gema, Periferia Animada, Fronteiras Imaginárias, Mostra Homenagem (homenageando um cineasta cuja filmografia está voltada para o universo popular) e a Tamojuntoemisturado que reunirá produções de até três minutos realizadas através de aparelhos celulares e câmeras fotográficas.
O regulamento do festival pode ser encontrado no site (link no título). O Festival acontecerá na Caixa Cultural, RJ.
Fragmentos de reflexões em A Obra de Arte na era da Reprodutibilidade
A Fotografia Pela primeira vez no processo de reprodução da imagem, a mão foi liberada das responsabilidades artísticas mais importantes, que agora cabiam unicamente ao olho. Como o olho apreende mais depressa do que a mão desenha, o processo de reprodução das imagens experimentou tal aceleração que começou a situar-se no mesmo nível da palavra oral.
A autenticidade da obra de arte Generalizando, podemos dizer que a técnica da reprodução destaca do domínio da tradição o objeto reproduzido
E, na medida em que essa técnica permite à reprodução vir de encontro ao espectador, em todas as situações, ela atualiza o objeto reproduzido. Esses dois processos resultam num violento abalo da tradição, que constitui o reverso da crise atual e a renovação da humanidade. Eles se relacionam intimamente com os movimentos de massa, em nossos dias.
A destruição da aura da obra de arte (...) com a reprodutibilidade técnica, a obra de arte se emancipa, pela primeira vez na história, da sua existência parasitária, destacando-se do ritual”. (...) Mas no momento em que o critério de autenticidade deixa de aplicar-se à produção artística, toda a função social da arte se transforma. Em vez de fundar-se no ritual, ela passa a fundar-se em outra práxis: a política.
A reprodutibilidade técnica e a arte cinematográfica Nas obras cinematográficas, a reprodutibilidade técnica do produto não é (...) uma condição externa para sua difusão maciça. A reprodutibilidade técnica do filme tem seu fundamento imediato na técnica de sua produção. (...) O filme é uma criação coletiva.
O decisivo, aqui, é que no cinema, mais que em qualquer outra arte, as reações do indivíduo, cuja soma constitui a reação coletiva do público, são condicionadas, desde o início, pelo caráter coletivo dessa reação. Ao mesmo tempo em que essas reações se manifestam, elas se controlam mutuamente.
A recepção através da distração, que se observa crescentemente em todos os domínios da arte e constitui o sintoma de transformações profundas nas estruturas perceptivas, tem no cinema o seu cenário privilegiado
“Sabe quando alguém pergunta a uma criança o que ela vai ser quando crescer? Ela responde médico, professora, bailarina, artista de novela... Ninguém diz que quer ser doméstica. Porque isso não é uma opção de vida: isso é uma sina que a pessoa tem”. Assim Roxane, um dos personagens do filme Domésticas, fala de sua profissão. Essa reflexão do personagem revela um olhar preconceituoso sobre o trabalho de doméstica. Ele não é visto como uma profissão que pode ser seguida como carreira, mas como uma sina, como algo que o destino reserva a algumas pessoas. E não é uma reflexão vã: o trabalho doméstico, muitas vezes a única opção de emprego para grande parte da população pobre do país, é visto como um trabalho menor, a ser realizado por pessoas sem capacitação. Isso não é coisa de agora: do Brasil colonial, em que trabalho doméstico era feito pelas escravas e seus filhos, ao Brasil pós-escravatura, em que ele continuou a ser executado pelos descendentes desses escravos acrescido de um contingente de brancos pobres, a figura do trabalhador doméstico se instalou em nossa cultura como a de um trabalhador menor, que, muitas vezes recebia como remuneração do seu trabalho moradia e comida, numa relação de falso parentesco – o agregado – que perpetuava o trabalho escravo, disfarçando-o de caridade.
Num país de tradições colonialistas, que conviveu com o trabalho escravo durante quatro séculos, o trabalho doméstico é ainda considerado um subemprego. E os profissionais que atuam nessa área são muitas vezes vistos pelos patrões como um mal necessário: é preciso ter em casa alguém que limpe o banheiro, lave a roupa, tire o pó e arrume a gaveta. Existe uma inegável desvalorização das atividades domésticas em detrimento a outros tipos de trabalho. Mesmo a dona de casa comum não tem seu trabalho valorizado e reconhecido como deve ser. Mulheres que trabalham fora sabem que ao chegar em casa terão toda a carga dos serviços domésticos para realizar, dobrando assim sua jornada de trabalho sem terem reconhecido pela família e pela sociedade esse duplo esforço. É um trabalho sem fim (todos os dias a comida tem que ser feita, a cama arrumada, a roupa lavada...) e não gera lucro visível. E a lógica do capitalismo não permite a valorização de um trabalho que não gera lucro. Encravada no inconsciente coletivo da nossa cultura, a desvalorização do trabalho doméstico tem como conseqüência uma ausência de olhar sobre os profissionais que exercem essas atividades. Domésticas, o Filme, inverte essa ótica - ou ausência de ótica. Nele um exército invisível de domésticas, porteiros, faxineiros e entregadores é o protagonista da história. É para eles que as câmeras e a atenção do público se volta. No lugar do hall de entrada, a garagem. No lugar dos restaurantes e shopping center da classe média, ônibus, favelas e a caótica paisagem da periferia paulista.
Não podemos deixar de lembrar, no entanto, que se Domésticas, o filme é um foco lançado sobre essa classe de trabalhadoras, é também, antes de tudo, um olhar da classe média sobre elas: os personagens são caricaturas (bem feitas, mas ainda assim caricaturas) de personagens reais. Os dramas e comédias do filme são estereótipos de dramas e comédias reais. Mas, ainda assim, o filme consegue atingir alguns pontos fundamentais para uma reflexão sobre a questão do trabalho doméstico. A narrativa, em tom de comédia, não deixa de colocar o dedo na ferida da exclusão social. Um dos pontos altos do filme é a trilha sonora. A trilha sonora original, composta por André Abujanra, utiliza como instrumentos as ferramentas de trabalho desse universo profissional: rodos, vassouras, baldes e aspiradores de pó, acompanhados de coros de vozes. Os clássicos da música brega nacional (Marcio Greik, Sidney Magal e Waldik Soriano, entre outros) que parecem sair direto de um radinho de pilha, nos levam direto para a cozinha e a área de serviço. Para expressar a violência da periferia de São Paulo, a batida seca do contemporâneo rap urbano, que marca tom pesado da vida na periferia pobre das grandes cidades. Esses três elementos musicais compõem poeticamente a ambientação do universo dos personagens, dosando o romantismo ingênuo com a violência das grandes cidades, ambos fatores presentes na vida dessa categoria de trabalhadoras.
Somando-se à música, a fotografia expressionista e a direção de arte primorosa colocam em primeiro plano, ao invés da sala de estar, a área de serviço, evidenciando a identidade cultural de uma categoria profissional marginalizada. Por fotografia expressionista podemos entender o tom carregado nas cores em algumas cenas e a iluminação marcada de sombras em outras, que evidencia o clima das cenas. O ritmo da montagem chama a atenção ao criar espaços de diálogo entre o espectador e o filme. Um dos exemplos disso é o conflito do personagem Gilvan entre casar, ter filhos e seguir carreira de trabalhador honesto ou entrar para uma vida de crimes. Na montagem, esse conflito é expresso pela edição paralela de dois planos simétricos: sua conversa com a namorada Raí e, ao mesmo tempo, com seu amigo. Num dos planos, os personagens estão à direita da tela e no outro à esquerda, deixando claro a divisão de Gilvan entre dois lados contrários, duas opiniões divergentes. Às vezes metalingüístico, o filme não deixa que o espectador esqueça que aquilo é ficção. Ao utilizar simultaneamente a fotografia a cores e em preto e branco (quando os personagens falam diretamente para o público) a narrativa permite que o público alterne sua atenção entre a diversão da comédia bem feita e a reflexão sobre a denúncia social, deixando na consciência do espectador alguns questionamentos importantes sobre a realidade do trabalho doméstico.
Um tripé.
A questão do trabalho doméstico é uma pedra no sapato da nossa sociedade. A discriminação da categoria é histórica e se expressa na ausência de proteção da lei e na lentidão com que os nossos legisladores tratam do assunto. Muitas vezes a única alternativa de trabalho para a maior parte das mulheres pobres, semi alfabetizadas e sem preparo profissional para carreiras mais desejadas, o contingente de mulheres empregadas como domésticas no Brasil vem aumentando a cada ano: segundo dados do IBGE de 2003, mais de seis milhões de pessoas trabalham em serviços domésticos. Essa estatística não computa os que nem sequer têm seus direitos trabalhistas garantidos por meio da carteira de trabalho. Desses seis milhões de trabalhadores domésticos, 93% são mulheres. E dentro do percentual de mulheres trabalhadoras domésticas, 57% é formado por mulheres negras. Portando, a desvalorização do trabalho doméstico presente no nosso cotidiano e em nossas leis deixa claro um tripé discriminatório: discriminação da pobreza, do gênero e da raça. Ao rebobinarmos o filme de nossa história podemos ver que o conceito de inferioridade racial forjado pela colonização e a tradição patriarcal da nossa cultura latina até hoje mantém de pé a desvalorização do trabalho da mulher, principalmente o da mulher negra.
Mais grave ainda é o fato de que 1,2 milhão de crianças, a maioria meninas negras e pardas entre dez e doze anos, trabalham como domésticas sem nenhum vínculo empregatício (dados do ministério público). A maioria trabalha 8 horas por dia, sem direito a folgas semanais e descanso remunerado; quatro por cento dessas meninas já sofreram maus tratos ou abusos sexuais no ambiente de trabalho. Segundo do Ministério Público é difícil fiscalizar esse tipo de trabalho abusivo, já que se desenvolve dentro das casas e é, muitas vezes, disfarçado pela guarda da menor trabalhadora concedida ao “empregador”.
Personagens ou mulheres reais?
Mais que um filme sobre esse universo de trabalhadoras, Domésticas é um importante instrumento de reflexão sobre a mulher e o lugar que a ela é reservado em nossa sociedade. Por meio dos personagens Quitéria, Roxane, Raí, Cida e Cléo, o filme discute a condição feminina com leveza e propriedade, mostrando a luta que todas as mulheres, domésticas ou não, enfrentam no dia a dia para terem seus sonhos e seus direitos reconhecidos.
As domésticas do filme foram tão bem caracterizadas que as cinco atrizes principais dividiram o prêmio de melhor atriz no Festival de Recife em 2001. As cinco personagens que elas representam formam um mosaico colorido e multifacetado de mulheres trabalhadoras domésticas com seus sonhos, suas ambições, suas dores, seus amores e seus desejos.
Cléo não sabe se acredita em reencarnação. Afinal, por que ela estaria amargando uma vida de trabalho exaustivo e quartos apertados se sua bisavó foi escrava, sua mãe doméstica, e ela dá continuidade à história familiar acreditando que o melhor para a sua filha é um emprego de babá? Cléo duvida que pode romper o ciclo milenar da exclusão a que está fadada. Sua filha, porém, acredita que pode mudar sua história. Aí começa o sofrimento de Cléo, em busca da filha que foge de casa para fugir da “sina” de doméstica.
Roxane acredita que o seu trabalho é uma alternativa temporária de sobrevivência. Ela não é doméstica, está doméstica. E vai à luta para conseguir sua tão sonhada ascensão social. Seus sonhos esbarram, porém, na exclusão reservada à mulher sem formação escolar. Em busca da ascensão social, Roxane resvala para a prostituição.
Quitéria não tem sonhos. Na sua ingenuidade, acredita que a doméstica numa casa é como uma geladeira ou uma máquina de lavar quebrada: se não funciona como deve, troca-se. E assim vai levando a vida, de patroa em patroa, de casa em casa, esperando que um dia isso tudo termine. Sem família, dependente do emprego de doméstica para sobreviver, Quitéria é um resquício da senzala perdida no tempo.
Rái não gosta de ser chamada pelo seu nome de batismo - Raimunda - que denuncia suas raízes nordestinas, e espera encontrar no casamento a sua felicidade. Ocupa seu tempo livre na busca do seu príncipe encantado, que nem precisa ser tão encantado assim. É ela quem põe um ponto de interrogação no conflito da mulher moderna entre a solidão e o casamento, entre a realização pessoal e profissional e a realização pela formação de uma família.
Já Cida sabe que o casamento não é sinônimo de felicidade e vai à luta por um relacionamento que a satisfaça. O marido indiferente é substituído pelo amante fogoso e ela encontra nesse relacionamento o equilíbrio para enfrentar seu pesado dia a dia de diarista.
Cada uma delas com seus sonhos – ou ausência de sonhos – vai mostrando ao espectador, de forma leve e bem humorada, a realidade dura e seca da pobreza nas grandes cidades. Em sua maioria, essas mulheres / personagens são oriundas do interior do país e vêm para São Paulo em busca de trabalho. Representam a obstinação de um povo em sobreviver às condições de pobreza a que foram submetidos pelo nascimento. O filme ilustra o que acontece com outras tantas mulheres que saem de suas cidades de origem e deixam suas famílias ainda muito jovens para buscar o sonho de sobreviver dignamente numa grande cidade. Mas embora a dignidade possa caber num apertado quarto de empregada, a realidade da cidade grande é muito maior que o sonho de qualquer moça do interior.
Sem dúvida, quando se fala de cinema e educação, Ilha das Flores, de Jorge Furtado, é o documentário mais exibido pelos professores brasileiros. Não sem mérito. Até hoje o filme é modelo para novas produções em cinema e vídeo. Olhem só a quantidade de prêmios que o documentário conquistou pelo mundo afora.. Urso de Prata no Festival de Berlim 1990 Prêmio Crítica e Público no Festival de Clermont-Ferrand 1991 Melhor Curta no Festival de Gramado 1989 Melhor Edição no Festival de Gramado 1989 Melhor Roteiro no Festival de Gramado 1989 Prêmio da Crítica no Festival de Gramado 1989 Prêmio do Público na Competição "No Budget" no Festival de Hamburgo 1991
Sem dúvida, se houvesse uma premiação para o filme mais visto e debatido por professores e estudantes, Ilha das Flores estaria no topo da lista!
A obra de Michel de Foucault (1926 -1984) é, incontestavelmente, referência para qualquer pesquisador que se proponha à análise social em vários campos de conhecimento. Poucos pensadores do século XX tiveram repercussão tão grande quanto o francês e menos ainda tiveram suas obras lidas fora das academias. O que o tornou uma referência universal foi o caráter inovador de sua obra: Foucault analisou, sob um ponto de vista bastante inédito, questões que possibilitaram uma nova abordagem das instituições sociais e das estruturas do pensamento (ou sistemas, como ele chamava). Com isso desvendou a relação entre as práticas discursivas e os poderes nelas intrínsecos. Mais do que isso, ele construiu um aparato instrumental para essas análises, traçando uma metodologia que ainda é referência nas pesquisas sociais. A importância de sua obra na educação é incontestável. Sua análise das disciplinas como um discurso organizado do poder e da escola como um instrumento adestrador do corpo contribuíram para a formulação de novas maneiras de pensar o processo ensino / aprendizagem, fora dos rígidos padrões que Foucault apontou em seus escritos. Apesar de sua formação em Filosofia e Psicologia, Foucault preferia referir-se a si como um arqueólogo do saber.
Michel de Certeau (1925-1986) era contemporâneo e conterrâneo de Foucault. Além disso, mantinha com ele uma relação de amizade e admiração, expressa em sua obra fundamental, A Invenção do Cotidiano, na qual ele utiliza-se basicamente da obra de Foucault, além de Wittgeinstein e Benveniste, para delinear alguns conceitos que são particularmente caros aos estudos atuais nas áreas da Comunicação, da Educação e da Cultura. Embora a sua obra tenha sido dirigida aos estudos da linguagem e da cultura, ela é base, hoje, de pesquisas em várias áreas. Na Educação, particularmente, Certeau é um guia nas pesquisas fundadas no cotidiano escolar. O que há de inovador na obra de Certeau são os conceitos de estratégia e de tática que definem, por sua vez, os conceitos lugar próprio e lugar praticado. Embora tenha ancorado sua obra na análise de Foucault, particularmente no livro Vigiar e Punir, Certeau aponta outro viés para a questão do discurso como um lugar do poder. Para ele, pessoas e sociedades se valem do discurso como um lugar onde podem trançar seus próprios sentidos a partir das delimitações espaciais do discurso fundador, subvertendo, assim, o que Foucault apontou como a ordem do discurso e apropriando-se dela para, numa negociação sem fim, imprimir ali também sua marca. Essa negociação é feita com base no que Certeau chamou de táticas que, ao mesmo tempo em que surgem a partir de um lugar próprio, delineado pela estratégia (ou o discurso do poder), transformam-no num lugar praticado.
Por meio desse rápido panorama dos dois pesquisadores podemos ver, a princípio, um ponto comum entre eles: ambos utilizam a espacialidade como metáfora nas suas análises do discurso. Para ambos a linguagem é uma construção arquitetônica na qual o indivíduo se movimenta e interage com o outro. Porém, a construção proposta por Foucault é a própria do discurso que ele desnuda. Ele se vale exatamente da arquitetura panóptica, colocando-se na posição de observador onipresente e onisciente, para denunciar a manutenção do poder nas bases da sociedade por meio do discurso organizado, conforme ele deixa claro nessa fala:
“suponho que em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade” 1 .
Assim, para Foucault, o discurso é uma estratégia de dominação.Certeau, ao contrário, aponta para a subversão da ordem do discurso por meio das táticas, comparando a linguagem ao traçado de uma cidade (lugar próprio), onde cada morador faz o seu próprio caminho (lugar praticado), construindo (se) ao longo da caminhada permanente. Enquanto Foucault aponta as estruturas permanentes de controle no discurso, ou o que ele chama de as microfísicas do poder, Certeau aponta para as fissuras das quais o sujeito se vale para subverter essa ordem e imprimir ali sua marca por meio da ação: “ela (a verdade) será resultado de um trabalho – histórico, crítico, econômico. (...) A partir de agora, a identidade depende de uma produção, de uma caminhada interminável (...) o ser se mede pelo fazer”2. Assim, se em ambos o discurso é uma construção arquitetônica, em Foucault essa construção já está pronta e é delimitadora, adestradora e perpetua a sujeição do indivíduo ao poder difuso das instituições, enquanto que em Certeau ela é o ponto de apoio para “Diferentes usos e diferentes práticas (que) produzem uma pluralidade de resultados (a cultura do plural)”3.
Outro fator nos quais os dois pesquisadores se diferenciam é a base da pesquisa de cada um deles: Foucault preocupa-se em ancorar sua pesquisa no discurso instituído, colocando as formas ordinárias de discurso fora do seu campo de estudos, embora reconheça a existência delas quando se refere aos “princípios de exclusão” (a interdição e a rejeição) e tenha se preocupado em suas pesquisas basicamente com os excluídos, conforme nos demonstra as publicações A História daLoucura (1961), Vigiar e Punir e a obra inacabada História da Sexualidade, entre outras. Assim, o que interessa a Foucault são as estratégias do poder institucional presentes no discurso. Em A Ordem do Discurso, ele deixa poeticamente claro a importância que o discurso instituído ou institucional tem para sua obra:
“O desejo diz: “eu não queria ter de entrar nesta ordem arriscada do discurso; não queria ter de me haver com o que tem de categórico e decisivo; gostaria que fosse ao meu redor como uma transparência calma, profunda, indefinidamente aberta, em que os outros respondessem à minha expectativa, e de onde as verdades se elevassem, uma a uma; eu não teria senão de me deixar levar, nela e por ela, como um destroço feliz”. E a instituição responde: “você não tem por que temer começar; estamos todos aí para lhe mostrar que o discurso está na ordem das leis; que há muito tempo se cuida de sua aparição; que lhe foi preparado um lugar que o honra mas o desarma; e que, se lhe ocorre ter algum poder, é de nós, só de nós, que lhe advém”.”
Certeau, ao contrário, fundamenta seus estudos na linguagem oral do cotidiano. Para ele a oralidade é o fundamento da relação social e exerce um papel central na constante recriação do espaço discursivo, por meio das interações com o lugar que é a fala. Ele acredita que o significado é fruto do uso cotidiano da linguagem, e não apenas da produção institucional dela. De acordo com Josgrilberg (2005,p.50) Certeau define a estratégia como
“[...] o cálculo, a manipulação de relações de poder, tornadas possíveis pelo isolamento- sustentado pelo desejo e poder – de um objeto, as estratégias organizam, determinam um lugar que pode ser administrado em relação uma exterioridade composta de alvos e ameaças”3.
Embora reconheça o jogo da estratégia, Certeau acredita que o controle da história e das práticas cotidianas é, porém, uma ficção, pois a existência das táticas torna o discurso um ato performativo, um lugar praticado, ou seja, um lugar onde o sujeito dialoga e interfere no discurso institucional, tornando o controle apontado por Foucault uma ficção.
Certeau utiliza o exemplo do equilibrista na corda bamba para pensar o movimento advindo das táticas e da constante reorganização do lugar. Na corda bamba o equilíbrio acontece em pleno movimento, quando o equilibrista recria a cada passo um novo equilíbrio, que nos remete ao ditado popular que diz que o caminho se faz ao caminhar:
“Em suma, um equilíbrio anterior no espaço funciona como a base para intervenções que criarão novos equilíbrios. Parar seria uma ilusão, indicaria a confiança no próprio lugar. Trata-se, portanto, de uma série infindável de partidas.”3
Certeau aponta que os relatos orais têm um papel central nessa recriação infindável do equilíbrio no espaço do discurso: são eles os movimentos que mantêm esse equilíbrio constante. Assim, para Certeau, a prática da oralidade não é um mero ato de consumo passivo e de repetição de um discurso já dado: é também um ato produtivo, performático, que traz em si uma pluralidade de códigos e referências. Com isso, Certeau aponta para a “tensão entre a “gramática que controla” e a enunciação que a atualiza” 3.
Certeau, assim como Foucault, preocupa-se em desvendar as microrrelações de poder no discurso. O que os diferencia nessa busca é a crença de um e de outro nas funções desses micro poderes e micro relações. Enquanto Certeau crê que elas deslocam as fronteiras da dominação imposta pelo discurso do poder, minando-o por meios das táticas, Foucault acredita que elas perpetuam essa dominação. Mas, em sua obra, Foucault termina por demonstrar exatamente o contrário daquilo que pretende provar: que o discurso do dominador não é tão rígido e impermeável assim, uma vez que o próprio pesquisador pode desvendá-lo por meio de suas rigorosas pesquisas históricas (ou arqueológicas, como ele diria). Como aponta JOSGRILBER (pag. 88), Foucault utiliza-se das táticas apontadas por Certeau ao utilizar uma visão panóptica da realidade para observar, descrever e analisar as estratégias disciplinares, traçando, em seus relatos, novas possibilidades de reconhecer e recontar a microfísica do poder que ele aponta.Assim, Foucault entra em contradição com seu próprio objeto ao usar, selecionar e dividir o material base de sua pesquisa e, a partir dele, pensar o aparato disciplinar. Foucault também situa o discurso como “um jogo (...) que jamais põe em jogo senão os signos. O discurso se anula, assim, em sua realidade, inscrevendo-se na ordem do significante.”1 Porém, é em Certeau que encontramos elementos do jogo apontado por Foucault: estratégias e táticas nada mais são do que elementos do jogo e da guerra. E, tanto um quanto a outra têm relação com a luta pelo poder.
Portanto, ambos os pensadores se contradizem na fundamentação básica do seu pensamento: Foucault, que acredita na imutabilidade da ordem do discurso, acaba por comprovar com suas pesquisas que o discurso é passível de ser reorganizado, seccionado, analisado e reinterpretado, como qualquer outro objeto da ciência, a partir de um instrumental apropriado – a História, a Psicologia e a Filosofia. Certeau, que acredita que o discurso é uma construção que se faz e é feita permanentemente pelos falantes, um lugar definido pelo constante devir, acaba por inseri-lo na ordem do discurso de Foucault ao batizar seus conceitos a partir de signos utilizados nos jogos e nas guerras.
Os críticos de Foucault o acusam de pessimista. Os críticos de Certeau apontam a sua metáfora de guerra e de jogo como uma estrutura binária, A versus B, que indica um jogo de forças entre duas organizações monolíticas3. O que é incontestável na obra tanto de um quanto de outro é a contribuição que ambos deram aos estudos sociais. Foucault, ao apontar o dedo para as estruturas do discurso do poder, nos chama a atenção sobre elas, enfatizando o que nelas nos aprisiona e, com isso, nos liberta da prisão desse discurso. Certeau, ao enfatizar o papel da cultura oral e popular na formação do discurso, traz para a pauta uma gama enorme de novas possibilidades de pensar e estruturar a linguagem. E, ao mesmo tempo, nos coloca em um lugar dinâmico, onde todo o equilíbrio deve ser base para um novo equilíbrio e a imutabilidade das coisas deixa de existir: podemos nos reconstruir a cada dia, como sujeitos, como cidadãos, como sociedade.
Referências Bibliográficas:
1 – FOUCAULT, Michel – A Ordem do Discurso. Ed. Loyola. 1996
2- CERTEAU, Michel – A Invenção do Cotidiano – citado em JOSGRILBER, Fábio B. – Cotidiano e Invenção – os espaços de Michel de Certeau. Ed. Escrituras. 2005
3- JOSGRILBER, Fábio B. – Cotidiano e Invenção – os espaços de Michel de Certeau. Ed. Escrituras. 2005
[...] A escrita que no livro impresso havia encontrado um asilo onde levava sua existência autônoma, é inexoravelmente arrastada para as ruas pelos reclames e submetida às brutais heteronomias do caos econômico. Essa é a rigorosa escola de sua nova forma. Se há séculos ela havia gradualmente começado a deitar-se, da inscrição ereta tornou-se manuscrito repousando oblíquo sobre escrivaninhas, para afinal acamar-se na impressão, ela começa agora, com a mesma lentidão, a erguer-se novamente do chão. Já o jornal é lido mais a prumo que na horizontal, filme e reclames forçam a escrita a submeter-se de todo à ditatorial verticalidade. E, antes que um contemporâneo chegue a abrir um livro, caiu sobre seus olhos um tão denso turbilhão de letras cambiantes, coloridas, conflitantes, que as chances de sua penetração na arcaica quietude do livro se tornaram mínimas. Nuvens de gafanhotos de escritura, que já hoje obscurecem o céu do pretenso espírito para os habitantes das grandes cidades, se tornarão mais densas a cada ano seguinte. (Walter Benjamin)
" O desejo de consumir te aterroriza. Estamos aterrorizados em sermos consumidores. Nós temos a liberdade de escolher entre a marca A, a marca B e a marca C... é essa a nossa liberdade. (...) Constante trabalho e constante consumo, isso é loucura. Isto está destruindo tudo e só vai continuar. Eu vejo muito pouco que vale a pena preservar. Não vejo nenhum valor ou saúde em manter esse sistema. Conseguir todas essas coisas é uma questão de coerção. As pessoas estão sendo forçadas a trabalhar em minas e nas fábricas. Sem isso não temos todas essas coisas. Um mundo de coisas que se supõe que devemos lutar para obter durante toda a nossa vida. Penso que ninguém se envolve nisso seriamente, mas a inércia leva isso adiante."
John Zerzan é um anarquista norte-americano que ganhou destaque a partir da década de 1980 com sua proposta fundamentada no retorno ao primitivismo. É dele o discurso acima. O documentário sueco Surplus (2003) baseia-se nas suas idéias para construir uma narrativa original e contundente sobre o nosso mundo globalizado e consumista.
Utilizando técnicas originais e uma montagem pra lá de criativa, o diretor italiano Erik Gandini coloca em cheque os valores da sociedade de consumo e aponta a insustentabilidade dos modelos econômicos do ocidente.
Para ampliar o acervo de livros das bibliotecas das prisões do Espírito Santo, a Secretaria de Estado da Justiça (Sejus), por meio do programa educacional ‘Portas Abertas para a Educação’ está promovendo a campanha permanente de doação Livro Aberto.
Segundo a coordenadora do programa, Telma Regina, “as bibliotecas das unidades prisionais têm o objetivo de estimular a leitura e democratizar o acesso aos livros, além de servirem de apoio aos internos que estudam nas unidades prisionais”.
Os interessados em participar podem doar livros novos ou usados de diferentes gêneros: romance, auto-ajuda, poesia, aventura, suspense, religião, contos e similares.
As doações podem ser entregues no Balcão da Cidadania, localizado no térreo do edifício Fábio Ruschi, na Av. Governador Bley nº 236, Centro, Vitória. Para esclarecer qualquer dúvida em relação ao destino dos livros o doador pode contatar a equipe do programa educacional. Bibliotecas prisionais do Estado. As doações podem ser entregues no Balcão da Cidadania no térreo do edifício Fábio Ruschi, na Av. Governador Bley nº 236, Centro, Vitória Quem tiver uma quantidade maior de livros pode ligar que a equipe se encarrega de buscar no local.
O programa ‘Portas Abertas para a Educação’ é uma parceria entre a Sejus e Secretaria de Estado da Educação (Sedu), e oferece aulas do ensino regular desde a alfabetização até o Ensino Médio, em 10 unidades prisionais do Estado.
Durante o ano de 2008, aproximadamente 780 internos frequentaram as salas de aula no estado, orientados por 53 professores. O número é muito pequeno se considerarmos que a população carcerária no estado ultrapassa 6 mil (dados de 2004) pessoas. Aumentar o número de alunos no programa é uma tarefa que a Sejus está se proponto. Cada um de nós, porém, pode fazer sua parte participando de campanhas de doação como essa.
Mais informações: http://www.sejus.es.gov.br (27) 3132-1847 - programaeducacional@sejus.es.gov.br.
O Simpósio acontecerá de 19 a 21 de novembro, na Ufes. Na programação, dias 20 e 21, às 12h 30min, haverá exibição dos programas Diferenças e Curta Cada Página, no auditório do IC V - Centro de Educação. Uma boa oportunidade para falar sobre cinema e educação.
De 9 a 12 de dezembro, no Cine Metrópolis, Ufes, acontecerá a I Semana de Cinema e Educação. A exibição dos filmes será sempre ao meio dia e haverá uma conversa ao fim de cada seção. A programação é aberta ao público em geral, mas voltada aos alunos de graduação em Pedagogia e cursos de licenciatura. A Semana é uma produção do Projeto Ação Audiovisual, em parceria com a Programadora Brasil e o Cine Metrópolis. Entrada franca!
Programa Terça - dia 9 - 12h: Diferenças (curtas) Labirinto - de Margarita Hernandez ee Tibico Brasil Reminiscência - de Eduardo Nunes Patuá - de Snir Wein O Resto é Silêncio - de Paulo Halm Príncipe do Fogo - de Sílvio Da-Rin Criaturas que Nasciam em Silêncio - de Chico Teixeira
Quarta - dia 10 - 12h: Curta cada Página (sobre livros, leituras e leitores) O Homem livro - de Anna Azevedo Felicidade Clandestina - de Marcelo Gomes e Beto Normal Dedicatórias - de Eduardo Vaisman A vingança da Bibliotecária - de Santiago Dellape O Livro - de Aleques Eiterer O Livro de Walachai - de Rejane Zilles
Quinta - dia 11 - 12h: Histórias do Cinema Brasileiro O Homem Morcego - de Ruy Solberg Simião Martiniano, o Camelô do Cinema - de Clara Angélica e Hilton Lacerda Roberto - de Amilcar M. Claro Cine Holiúdy - o Astista contra o Caba do Mal - de Halder Gomes Como se morre no Cinema - de Luelaine Loiola Corrêa
Sexta - dia 12 - 12h: Janela da Alma - Longa de João Jardim e Walter Carvalho Cego Oliveira no sertão do seu olhar - de Lucilla Meirelles
Uma das características do cinema é o fato de poder ser utilizado pelo espectador como uma janela através da qual ele pode observar o mundo. Por esta janela ele pode ver apenas o que a moldura mostra (ou recorta), ou pode, também, debruçar-se em seu peitoril e olhar o que está em volta da moldura, extrapolando os limites impostos pelo recorte do filme com sua própria realidade e suas subjetividades, estabelecendo, através do filme, um processo cognitivo permanente.
Pois o que é relevante em um filme não é tanto a história que ele nos mostra ou o desenrolar da ação. Também não é o discurso narrativo em si, nem os aspectos formais de construção da narrativa cinematográfica. O que o torna importante como ferramenta pedagógica é a capacidade que ele tem de dar forma às angústias e ao cotidiano das relações humanas, mediadas pela identidade com o conteúdo, com o som e com a imagem.
A imagem nos cerca por todos os lugares. Por onde quer que circulemos no nosso dia a dia urbano, somos bombardeados por fotos, anúncios e outros códigos visuais que estão presentes nas roupas, nas marcas, nas placas de sinalização, etc. A imagem em movimento também: ela definitivamente faz parte do nosso código de comunicação e está cada vez mais presente no nosso cotidiano. Impossível fugir dos filmes, novelas, clips musicais, da publicidade. Somos cercados pelas imagens e pelos sons que as acompanham. Deixamos que penetrem em nós as mensagens que elas nos dão, mesmo sem que nossos sentidos disso se apercebam. Enquanto que na leitura nos predispomos ao livro de uma forma totalmente diferente - nos isolamos, nos recolhemos, buscamos a concentração dos sentidos no que vai ser lido - na leitura do audiovisual, ao contrário, nos deixamos invadir pela imagem e pelo som. Somos cercados por eles e nos deixamos penetrar por eles, mesmo sem querer.
Por esse fator involuntário, somos muitas vezes assaltados por mensagens que nosso cérebro não processa completamente. A proposta do projeto Ação Audiovisual é possibilitar instrumentos para a leitura das produções audiovisuais e, conseqüentemente, capacitação para o entendimento crítico das mensagens que nos são passadas por eles. Saber o que é o cinema e o vídeo e aprender a fazer audiovisual pode possibilitar uma “desmistificação” dessa linguagem, ao mesmo tempo em que pode possibilitar um retorno à leitura e à escrita, na procura de roteiro e argumento para as produções realizadas.
Na educação, é cada vez maior o uso do vídeo e do cinema como instrumento pedagógico para a fixação de conteúdos. Mas nesse uso nos deparamos com um problema fundamental: para utilizar o cinema e o vídeo (códigos audiovisuais) na educação, é preciso que os educadores saibam “ler” esses códigos. Embora os educadores tenham perfeito domínio de ferramentas de linguagem como livros, jornais e internet, muitas vezes eles não tem como fazer uma decodificação dos instrumentos audiovisuais, embora os utilizem. Isso gera um certo “desperdício” de uma ferramenta de trabalho importante para os educadores.
O que é? Projeto que utiliza o cinema e o vídeo, bem como todas as formas de produção audiovisual, como instrumento de educação e reflexão nas salas de aula e fora delas (associações comunitárias, ongs, etc.)
Como fazer a Ação Audiovisual?
1 Por meio de oficinas de linguagem audiovisual; 2 Por meio de exibição de filmes e vídeos acompanhados de discussões e debates 3 Por meio de oficinas de realização de vídeo; 4 Por meio de formação de dvdtecas comunitárias;
Escrevo. Às vezes, uso palavras. Outras vezes uso imagens. Escrevo sobre o que gosto, o que vejo e o que desejo. Ou sobre o que me desgosta, sobre o que não alcanço e sobre o que me apavora. Escrevo.
Acredito que as produções audiovisuais - cinema, vídeo, desenhos animados, webvideos etc - podem contribuir na educação formal. O projeto Ação Audiovisual nasceu dessa crença. A princípio era um projeto de extensão da UFES - Universidade Federal do Espírito Santo. Agora é também meu projeto de pesquisa no Mestrado do PPGE - Programa de Pós-Graduação em Educação da UFES. A Mostra Ação Audiovisual, que integra o projeto de extensão, tem como objetivo dar destaque às produções audiovisuais que se ocupam de temas ligados às questões sociais e aos direitos humanos. Outro braço desse projeto é a exibição de filmes e vídeos em espaços educacionais. Na pesquisa, me preocupo com a formação de professores na linguagem audiovisual. O objetivo desse blog é atualizar aqui os percursos que tenho feito na pesquisa.
Oficinas Ação Audiovisual
Oficina TV de Bolso
O que é:
A oficina propõe a elaboração e a organização da narrativa audiovisual por meio do vídeo em baixa resolução e a interação com o ambiente de forma criativa e crítica. Possibilitará aos participantes ler e escrever no âmbito das narrativas audiovisuais, criar e manipular imagens organizando-as em discursos através da realização de exercícios, elaborar um projeto final e compreender as especificidades dos modelos narrativos (construção da narrativa: idéia, sinopse e argumento, produção, pesquisa, planificação, etc); e pós-produção (montagem, relações gráficas, rítmicas, espaciais e temporais).
Pretende, ainda, estabelecer diálogos entre a produção cultural local tradicional e a juventude, favorecendo o conhecimento e a valorização da história, tradição e cultura local.
Oficina Linguagem do audiovisual para educadores
O que é:
O curso tem por finalidade enfocar a história do cinema e do audiovisual, os aspectos narrativos desses, as interações do cinema com a educação e o uso de obras audiovisual na educação.
Cabe questionar, ainda, por que o desconhecimento de obras e autores importantes da literatura é visto como um grave problema a ser enfrentado nos meios educacionais, enquanto o fato de a maioria dos brasileiros ignorar a existência de incontáveis obras de nossa cinematografia (...) é tratado como algo totalmente irrelevante. (...) (...) se admitimos que a relação com filmes participa de modo significativo da formação geral das pessoas, precisamos entender como é que isso se dá e qual é a extensão e os limites dessa participação. Precisamos estar dispostos a entender qual é a pedagogia do cinema, suas estratégias e os recursos de que ela se utiliza para "seduzir", de forma tão intensa, um considerável contingente de pessoas, sobretudo jovens. Para isso é necessário nos dispormos a conhecer o cinema, sua linguagem e sua história. Rosália Duarte in Cinema e Educação - Ed. Autêntica
Montando seu cineclube - Cartilha da Programadora Brasil
Nem sempre é tarefa simples definir a linha curatorial mais indicada para o público do cineclube. A relação Faixa Etária/Classificação Indicativa* seria simples de definir, já que todas as obras deveriam ter suas classificações apontadas. Isto já ocorre no caso dos longas-metragens, pois, para que seja exibido em salas comerciais, deve ter classificação sacramentada pelo Ministério da Justiça. No caso dos curtas-metragens, o problema é maior, já que esse formato não encontra janelas de exibição no circuito comercial e, por serem produções com poucos recursos orçamentários, não têm a possibilidade de fazer um trabalho de lançamento adequado **.
Os filmes contratados pela Programadora Brasil vêm agrupados por temas, a fim de facilitar a programação do seu ponto de exibição.
No entanto, além da classificação indicativa, a equipe do cineclube e seu público devem se conhecer e interagir permanentemente à procura de harmonia e de maneira que o cineclube cumpra seu papel cultural e social. Para isso é extremamente necessário que pesquisas direcionadas aos freqüentadores sejam realizadas, não só para que a equipe saiba que tipos de filmes mais agradam, mas também para que assuntos de interesse do público possam servir de base para as pesquisas da curadoria, a condução dos debates e melhores formas de divulgação das sessões.
Para valorizar ainda mais as suas sessões, você pode promover pequenas apresentações de grupos locais de música, teatro, dança, poesia entre outras atividades.
(*) O Departamento de Justiça, Classificação, Qualificação e Títulos (Dejus), em atendimento aos princípios da transparência e da eficiência, fixou procedimentos rígidos para a classificação indicativa. Para análise e atribuição de classificação indicativa, o titular ou representante legal da diversão pública deverá protocolar o requerimento no Departamento de Justiça, Classificação, Títulos e Qualificação, da Secretaria Nacional de Justiça, sito na Esplanada dos Ministérios, Bloco T, Ministério da Justiça, Anexo II, Brasília, CEP 70064-900 (texto extraído de www.mj.gov.br).
Passo a Passo:
1) Primeiro o classificador assiste o filme e faz uma DESCRIÇÃO FÁTICA, que é uma descrição centrada na ação do filme ressaltando em negrito itens que entram nas tendências de classificação (esses critérios estão no livro da Classificação Indicativa, por exemplo, consumo de drogas lícitas entra como não recomendado para 10 anos)
2) Feita a descrição, o classificador lista todas as tendências de classificação junto com atenuantes ou agravantes e sugere, a partir da análise destes fatores, a classificação pretendida para o filme. Tudo isso faz parte de um só documento que é a descrição fática.
3) Existem mais dois formulários a serem preenchidos: FORMULÁRIO DE JUSTIFICAÇÃO DE CLASSIFICAÇÃO PRETENDIDA (formulário para elencar questões culturais, educativas, informativas presentes no filme) e FICHA TÉCNICA DE CLASSIFICAÇÃO (dados técnicos do filme como bitola, cromia, elenco, produtora, direção e etc. e sobre o proponente, no caso, a Programadora).
4) Esses três documentos são enviados junto com os CPBs e a obra para o Ministério da Justiça.
5) Os processos são acompanhados via site www.mj.gov.br/classificacao.
(**) Todos os programas disponíveis no catálogo da Programadora Brasil têm classificação indicativa impressa no box do DVD e, nos casos dos curtas, seguindo as normas do Ministério da Justiça, o filme com a faixa etária indicada mais elevada é o que dita a classificação indicativa do programa.
Divulgação
Não há como definir a melhor divulgação e cada cineclube deve conhecer e saber como melhor alcançar seu público. Mesmo que o “boca a boca” aconteça naturalmente depois de certo tempo, o trabalho de divulgação deve permanecer com consistência, pois, do contrário, é certo o afastamento gradual do público.
A comunicação estabelecida entre a organização do cineclube e seus espectadores é tão importante que há cineclubes com um pequeno, porém participativo, público “presencial”, que aguarda com carinho e entusiasmo a programação e as discussões propostas pela mesma.
Algumas formas de divulgação mais utilizadas:
Cartazes e filipetas impressas; Página eletrônica, blog, orkut; Mala direta convencional; Mala direta virtual; Carro de som; Divulgação intercineclubista – cineclubes de um mesmo estado ou região que interagem permanentemente e divulgam as suas sessões coletivamente, uns dos outros, se constituindo num potente circuito local que dialogue com outros circuitos de outros estados e regiões.
Orientações Técnicas
Sugestão de equipamento (para públicos até 250 pessoas em sala fechada):
Tela de 3m x 4m Projetor de 1.200 ansilumens 4 caixas de som com potência 350 rms 1 mesa de 8 canais 1 equalizador (caso o som esteja muito grave ou agudo poderá ser melhorado)
Produção da sessão
O público deve se sentir em uma sala de cinema, mesmo que você esteja improvisando o espaço. Verifique se a sala fica perfeitamente escura. Caso contrário vede janelas e outras entradas de luz.
Verifique se a tela está limpa e bem esticada, sem rugas, para que a sessão não seja prejudicada.
Verifique o estado do projetor.
Verifique se o aparelho de DVD e os cabos de conexão estão funcionando adequadamente.
Antes da sessão, faça um teste no equipamento de projeção com o filme a ser exibido. Desta forma você ajusta os níveis da imagem.
A boa qualidade do som é tão importante quanto a qualidade de imagem em uma projeção. Verifique se a aparelhagem de som, microfones, cabos e conexões estão funcionando adequadamente.
Chegue ao local da sessão com antecedência, a fim de checar todos os detalhes e evitar imprevistos.
Abra a sessão com os agradecimentos que se fizerem necessários e menção às instituições e pessoas que participaram da viabilização da mesma. Apresente o programa ou filme a ser exibido, mencionando o debate ao final da projeção, se houver.
Caso tenha algum material de apoio sobre o(s) filme(s), distribua antes da apresentação, para que o público tenha a possibilidade de analisar o material.
Comece a exibição no horário anunciado. Respeite a platéia evitando atrasos. Se ocorrer algum imprevisto, mantenha a platéia informada.
Se possível fotografe a sessão. No próximo item apresentamos exemplos de documentação de sessões através de fotografias.
Conforto e Segurança
Para que a sua exibição seja um sucesso, você também precisa pensar na segurança do público, portanto é interessante atentar para alguns detalhes que fazem a diferença:
Verifique com antecedência os pontos de energia elétrica e, principalmente, a posição dos interruptores para mais agilidade no acender e apagar de luzes para a projeção; Tenha a mão o nome e os telefones das pessoas a quem recorrer em caso de emergência; Localize antecipadamente os extintores de incêndio; Proteja com fita gomada os fios e cabos dos equipamentos para evitar tropeços de passantes, garantindo a segurança da platéia (pode parecer bobagem, mas a falta deste item pode gerar grandes transtornos durante a sessão, como quedas de equipamentos). Fotografando as sessões para registro interno e externo
Fotografias de sessões são uma preciosa fonte de informação, documentação e valorização das suas ações enquanto cineclubista e produtor cultural. Além disso, registram as paisagens humanas, sociais e culturais do nosso imenso país.
Elas devem possibilitar a identificação do local de exibição, a entrada dos espectadores na sala de exibição, o público e interior do local de exibição. Além disso, deve identificar o público e o interior do local de exibição, além da apresentação da sessão e da atração local após a sessão e os debates.
Conduzindo debates sobre os temas propostos nos filmes exibidos
Para cumprir seu papel social, o cineclube deve manter relação estreita com o seu público. Falamos sobre as pesquisas, sobre a divulgação, sobre a apresentação das sessões e a ponta final do ciclo de trabalho é o debate. É nesse momento que todas as partes envolvidas já tiveram conhecimento de todas as informações acerca das obras exibidas e poderão tirar algumas conclusões, a partir da percepção de cada um.
Num debate, tudo parte do conteúdo, seja relacionado à linguagem e/ou estética audiovisual ou a demandas locais e/ou individuais que surjam durante o debate.
Um bom debate fica na memória dos participantes e cria ligação visceral entre a obra e o público. Um bom debate começa na apresentação da sessão. Não é incomum que sessões lotadas se tornem debates esvaziados, não por reprovação ao filme, mas por falta de empolgação em conversar sobre ele ou por desconforto em se falar publicamente.
Não existe uma só forma de se implementar debates e isso depende principalmente do público e do ambiente de exibição:
Debate formal – Apresentação da sessão, com breve resenha sobre a obra e sua contextualização histórica, apontando para momentos importantes e debate de mesa após a sessão. Chamamos, aqui, debate de mesa aquele com mediador e convidados, que podem ser os realizadores dos filmes e/ou um crítico, um integrante da curadoria ou um profissional ligado ao tema proposto (ex: filme sobre futebol, com um jogador ou técnico como convidado).
Debate informal – É o caso de exibições em locais abertos, atreladas a outras atividades num mesmo espaço. Nesse caso, o debate não é menos importante, apenas não acontece no formato do tópico anterior. A apresentação segue a mesma linha, somente instigando as pessoas a conversarem nas suas “rodas”. Esse tipo de ação surte muito efeito se atrelada à divulgação virtual. Muitos freqüentadores interagem com a equipe do cineclube e com outros freqüentadores por meio de mensagem eletrônica nos dias posteriores às sessões e já começam as conversas, muitas vezes, a partir da mensagem de divulgação recebida.
Debate virtual – diferencia-se do tópico anterior, simplesmente por ser formal e acontecer principalmente no ambiente virtual. Listas de discussão, chats são as principais ferramentas e podem acontecer atrelados a sessões onde todos estejam presentes ou atrelados a sessões virtuais do começo ao fim (divulgação, exibição e debate na rede).
Captação de parcerias locais
Se você pretende adquirir os programas da Programadora Brasil, mas o seu ponto de exibição não tem verba para tal, pode buscar parcerias locais que viabilizem a aquisição.
Você pode tentar uma parceria com uma loja ou uma empresa em troca de colocação de um banner no local das exibições ou exibição de vinheta do apoiador antes do filme. Há, ainda, a possibilidade de incluir a logomarca deste apoiador no material de divulgação do seu ponto (ou das suas sessões).
Informando resultados das exibições
Ao adquirir os programas da Programadora Brasil, o responsável pelo Ponto de Exibição compromete-se a enviar a agenda e os resultados das sessões realizadas.
Estes resultados são compilados e enviados aos realizadores, que são assim informados sobre a carreira de seus filmes nas exibições realizadas em todo o Brasil. Em breve estes dados estarão postados na página do projeto na internet: www.programadorabrasil.org.br
Os calendários e relatórios enviados pelos Pontos de Exibição também são bastante úteis para a Assessoria de Imprensa do projeto, já que as suas sessões podem virar notícia no Informe quinzenal da Programadora Brasil.
Continue a se informar sobre cineclubes e filmes brasileiros visitando as páginas abaixo listadas:
Ministério da Cultura – www.cultura.gov.br
Agência Nacional do Cinema (ANCINE): www.ancine.gov.br
Conselho Nacional de Cineclubes (CNC): www.cineclubes.org.br
Associação Brasileira de Documentaristas (ABD): www.abdnacional.org.br